A COISA

IMG_0545Você sabe o que é, aonde anda, ou onde está?

Você já ficou de frente com a coisa? Já disse em algum momento assim: “a coisa está ficando feia! A coisa está feia! Que coisa é esta, meu Deus? Só pode ser a coisa! Sai coisa ruim!

Na hora de irritação contra alguém talvez tenha xingado – o coisa!…Mas, creio que também já falou – Que coisa boa!

Somos instruídos a não coisificar as “coisas”que giram em torno de nós, mas mesmo assim – acontece cada coisa!

Com base na coisa fui buscar o que a teologia, a filosofia, a sociedade, a bíblia, dizem a respeito da coisa. Será que vale a pena falar de coisas assim? Vamos ver que coisa vai sair, porque no meio de tantas coisas pode haver uma, ou várias coisas, nas quais valham a apena refletir.

Coisa no sentido etimológico, derivando do latim está relacionada à causa, passando por certos processos e abrangência a coisa passou a ser considerada – realidade objetiva independente do espírito e da representação na interpretação de Durkheim. É claro que os curiosos filósofos queriam deslindar mais sobre a “coisa”, porque de coisas, no sentido geral já estavam saturados.

Seria um gênio nascido em La Haye em 1596, que se tornou depois o filósofo francês – René Descartes, de quem Hegel referiu-se como o homem que apontou para – terra à vista! por ter mostrado a filosofia moderna, sintetizando tudo em respostas às grandes perguntas, partindo do princípio de que tudo é falso, se houver o mínimo de razão para ser duvidável?

Será que ele descobriu o “método da dúvida” como caminho mais curto para poder chegar em algo indubitável, ou em alguma verdade objetiva? São dele estas palavras: “Há algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo depois eu fundei em princípios tão mal assegurados, não podia ser senão mui duvidoso e incerto, de modo que era necessário desfazer-me de todas as opiniões que até agora dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”.

Parece que ficou claro em sua mente, depois de anos de reflexão, que seria impossível descobrir algo substancial à frente, sem duvidar de quase tudo atrás. Porém, logo entendeu que era impossível duvidar da existência de seus pensamentos e que logo – a “coisa”que pensa é uma substância separada, totalmente independente do seu corpo, ficando claro que fazia distinção entre a mente e a alma, que segundo ele era composta de duas partes distintas: a inferior e superior, respectivamente – sensitiva e racional, e estava inserida ao corpo, mas precisamente ao cérebro, através de uma pequena glândula.

Descartes com sua famosa frase – “cogito ergo sum”. que traduziram em português como – “penso logo existo”, mostrava tanto uma realidade metafísica, quanto uma separação entre a mente e o corpo.

A “coisa”, ou coisas, supostamente descoberta e racionalmente aceita, tentando colocar de forma simples e objetiva seria:

  • A descoberta de si mesmo, como um ser pensante? Afirmou: “Mas o que sou eu, portanto? – Uma coisa que pensa. – Que é uma coisa que pensa? – É uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que imagina também e que sente”. Partindo desta suposta elucidação, entendeu que o seu pensar era efeito, logo teria uma causa, com base no entendimento que teve sobre o seu próprio pensar, que na verdade, em certas relações provinha de algo além de seu cérebro. Com isso ficou claro: Eu existo! Passou a considerar ser uma coisa que pensa, mesmo não imaginando nada sobre os objetos circundantes, porque era capaz de pensar sobre algo fora de si.
  • A descoberta da distinção entre a alma/mente/espírito e o corpo. Afirmava: “Há grande diferença entre o espírito e o corpo, pelo fato de ser o corpo, por sua própria natureza divisível e o espírito inteiramente indivisível”.
  • A descoberta de Deus, na forma de substância eterna, que se revela, ou se manifesta no seu pensar além dos sentidos. Refletia: “…sei que todas as coisas que concebo clara e distintamente podem ser produzidas por Deus, tais como as concebo…”. Partindo dessas reflexões e outras, Descartes passa a entender que os sentidos corpóreos são mais factíveis ao erro, do que os sentidos do espírito, pois manifestam desígnios do puro pensar que emanam do Deus criador, que é mais nobre do que o corpo. Então, podemos pensar que a coisa, para Descartes é: a) ele mesmo, pelo fato de existir como ser pensante, b) o espírito como o agente pensador e, c) Deus como a substância da qual emana a fonte do pensar além dos sentidos e que pode ser melhor demonstrado pelas razões filosóficas do que pela teologia, através das quais foi possível perceber o – bom Deus. Seria isso a “coisa“ misteriosa, buscada e que foi revelada?

Já Emanuel Kant olhou e se propôs ver, não a coisa, mas a – coisa em si, que para o seu entender era a realidade inteligente que o espírito não pode conhecer. Era o – numeno – a coisa pensada, não compreendida, mas que para mente cartesiana se tornou compreensível. Kant, diferente de Descartes, embora não negasse a existência de Deus de forma objetiva, entretanto via a impossibilidade de prova, tanto ontológica, quanto cosmológica sobre a existência de Deus. A impossibilidade de ver o invisível pontuava o domínio do entendimento puro, que ao contrario de Descartes que se projetava como – terra à vista, Kant, via no entendimento puro “a terra de verdade circundada por um vasto e tempestuoso oceano, que é a verdadeira sede da ilusão. Ele foi enfático ao afirmar que: o entendimento só pode fazer dos seus princípios à priori ou de todos os conceitos um uso empírico e jamais um uso transcendental”, posição contrária a de Renê Descartes. Assim, sobre a coisa – Ding-An-Sich, indicando que a verdadeira natureza, prefere vê-la no sentido geral e em si mesma, atrás dos fenômenos observáveis, onde o conceito requer que, em primeiro lugar, a forma lógica de um conceito em geral e, em segundo lugar, também a possibilidade de dar-lhe um objeto ao qual se refira”. Mas, esta forma ideal que está nos fenômenos continua sendo uma realidade oculta. A coisa em si, pode ser detectada nos fenômenos, mas não pode ser totalmente explicitada.

A coisa, na forma simplista, pode ser algo, que por ignorância, comodismo, incompreensão, ou para ser mais direto e objetivo, resolvemos chamar de coisa. A coisa que existe, que aparece, que tem, que falta, que está lá, acolá, alhures, algures, mas a princípio, até que se prova ao contrario há coisa que aparece ou não é real.

A coisa está na gente, na religião, na filosofia, na poesia, no universo. A coisa está solta por aí, de forma visível, dinâmica, mitológica, boa e má. O importante na vida é colocar a coisa no devido lugar, e procurar saber a coisa que em nós incomoda, satura, falta e o que é.

O que é a coisa?

É a alma? “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe” . (Mário Quintana)

É a beleza? “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”. (Charles Chaplin)

É o que somos? “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. (José Saramago)

A coisa é o que não falamos, mesmo falando? “Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo, nunca é o que falo, e sim outra coisa. Capta esta coisa de que na verdade falo, porque eu mesma não posso”. (Clarice Lispector)

A coisa é a necessidade de falar? “O Sábio fala porque tem alguma coisa para dizer, o tolo porque tem que dizer alguma coisa”. (Platão)

O que podemos decifrar sobre coisas que são, que eram, que tem e faltam, de acordo com a visão dos fundadores do cristianismo?

  • Que coisas são essas? “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma senão daquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavras e obras…(Paulo – Rm 15. 18-20). Lendo sua cartas é possível ver um pouco dessas coisas.
  • Os que parecem ser alguma coisa. “…digo, que me pareciam ser alguma coisa, nada me acrescentaram”. (Paulo – Gl 2. 6) Se fossem alguma coisa, como seriam, na perspectiva do apostolo? Há coisas que acrescentam e coisas que nada são?
  • Quando a coisa em nós é enganosa. “Porque se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana”. Quando, e o que nos faz ser alguma coisa que possa ser algo relevante?
  • Que coisa fazer diante dos desafios? “…quanto a mim, não julgo vê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo…(Fp 3. 13, 14). Há coisas que ficam para trás e coisas que estão à frente. Prosseguir em busca da coisa essencial deve ser a coisa certa!

Se a coisa para Descartes tem relação com a suposta descoberta de que, se penso existo, e para Kant é, que a coisa está oculta por trás dos fenômenos, isso não representa que todas as coisas estão deslindadas, porque as coisas reveladas, ou que se revelam nos pertencem, as ocultas pertencem a Deus, e como não sabemos exatamente o que nos pertencem, somos sempre desafiados a buscar por algo mais.

Cabe a cada um de nós, como seres existentes, cônscios de responsabilidades, saber as coisas que temos, mas que devem ser abandonadas; as coisas que temos que devem ser usadas, e as coisas que precisamos buscar e que nos faltam.

Com Descartes ficamos diante de alguém que usou o método da dúvida sobre tudo o que se havia falado sobre a alma e sobre Deus. Com Emanuel Kant a impossibilidade de compreensão do eterno absoluto, mas, com Jesus Cristo podemos refletir o princípio da necessidade da alma, mesmo quando tudo parece está plenamente de acordo com princípios, culturais, religiosos e pessoais. Lição que podemos extrair com o diálogo que teve com um jovem, financeira e religiosamente bem sucedido, mas que diante dos enunciados de Cristo, correu em sua direção e ajoelhando-se perguntou-lhe: Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Jesus fez algumas ponderações sobre o conceito de bondade a ele atribuída e em seguida perguntou-lhe: Sabes os mandamentos, fazendo alusão a alguns como: não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra o teu pai e tua mãe. Mandamentos esses, que pouca gente hoje responderia, como o fez o jovem milionário – “Mestre tudo isso tenho observado desde a minha juventude”.

Diz o texto de Marcos: “Mas Jesus, fitando-o o amou e disse: Uma COISA te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me. Interpretações religiosas e teológicas à parte, mas suponhamos que você fosse, ou seja uma pessoa rica, e recebesse esta mesma orientação, o que você entenderia era isso: Vender tudo para dar aos pobres, e como resultado ter como garantia a recompensa – um tesouro (não especificado) no céu. Seria “coisa” fácil?

Para o jovem rico e aparentemente interessado pelo destino da alma, foi uma receita ou resposta contundente que o deixou abalado, ou contrariado e por isso – “retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades”. Jamais pensou que Jesus pudesse lhe responder – uma coisa assim.

É claro, sabemos pelo conjunto da doutrina neotestamentário, que aquela resposta não era comum à pergunta que fez. Um exemplo que podemos citar, é a pergunta semelhante que fez o carcereiro de Filipos a Paulo e Silas na prisão: Senhores que devo fazer para ser salvo? – Resposta sem titubear e de acordo com a regra geral da soteriologia – doutrina da salvação: Crê no Senhor Jesus Cristo e será salvo tu e a tua casa”.

A conquista da vida eterna é superior ao possuir mais uma coisa na vida. É alcançar o patamar mais glorioso de quem está convicto de que a vida continua além do corpo mortal, pois somos compostos de uma mente indivisível e eterna, que reconhece que procede de Deus.

Os que agem em direção a essas conquistas, optam pela permanente companhia em lugar de descanso e paz. Lembrando que, somos peregrinos neste mundo. Nosso destino final não é aqui, como escreveu Henry Van Dyke: Um homem sem um pais é um exilado no mundo; um homem sem Deus é um órfão na eternidade”. De todas as coisas que aprendemos e conquistamos, esta é a que jamais devemos esquecer: Vida eterna, aqui, agora e sempre é a coisa mais importante a ser descoberta e conquistada. Terra à vista!

 

Francisco Meirinho

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O BRASIL PERDEU!

O BRASIL PERDEU!
Imaolho“O Brasil não perdeu, quem perdeu foi a seleção brasileira”. (Chico Pinheiro – no Bom Dia Brasil em 09/07/14)

O mundo social está fundamentado em forças antagônicas, num movimento de racionalidade e irracionalidade, lógico e ilógico, mentira e verdade. Não há verdade absoluta em nada e em ninguém, no sentido tangível, por isso o absoluto é um desconhecido da mente humana, embora seja melhor identificado no universo, e em parte alcançado por alguns, do ponto de vista metafísico. Talvez por isso a magia do futebol ganhou o coração da maior parte da humanidade, onde o lógico e o ilógico convivem bem, não só nos campos de gramados, mas nos campos mentais, porque, neste caso os semelhantes se atraem, sob a égide da identificação casual.
Cada vez que vejo uma bola batendo no travessão, um pênalti dado, dependendo da visão, interpretação das regras em fração de segundos, sem considerar eventual tendência da arbitragem; sem contar com os impedimentos dos jogadores, que consideram – linha da bola e adiantamento do jogador sobre o adversário, que pode ser definido por uma parte do dedão do pé adiantado, e que dependendo dessas nuances pode resultar em gol, logo entendo quanta sabedoria e idiotice se misturam no mesmo jogo. Mas, isso reflete muito o que sou, e o que somos – sábios ignorantes, que vivem no mesmo campo, onde uns, mal têm para comer, e colocam toda a sua economia para assistir, e outros ganham milhões só para exibir.
Olho para os procedimentos políticos, as relações sociais, as aberrações na administração dos bens públicos, as práticas religiosas esquisitas onde o profano e o sagrado se misturam em todas as religiões. Ninguém se salva, nem evangélico, nem católico, nem crente, nem ateu, “nem grego nem bárbaro”, nem santo e nem pecador. Aí me pergunto! Qual o desafio? Vencer o mal com o bem, me respondo.
Há no fundo do túnel, creio, uma luz, uma referência – Vencer! Certamente, não completamente, mas até chegar a um ponto de equilíbrio, porque, entendo que não há espaço no mundo presente para o triunfo absoluto da verdade, do amor, da honestidade, etc.
Já pensou, se você acordasse amanhã cedo, com todas as pessoas sendo sinceras e falando a verdade sobre tudo que fazem e sabem? Agindo com sabedoria e lucidez! Não seria uma verdadeira loucura? Haveria muito desemprego! Hospitais, laboratórios, partidos políticos, instituições religiosas, fabricantes de supérfluos, etc. Instituições militares com número reduzido de funcionários, ou fechados por falta de atividade.
O mundo não está preparado para viver só com base no bem! Mas, pode viver melhor buscando o equilíbrio, com mais conhecimento, lucidez, participação, tolerância e amor, sobre o que é melhor para a sociedade, rejeitando os elementos manipuladores e nocivos à sociedade que o permeiam em todos os segmentos.
É com base nesta reflexão que posso concordar com Chico Pinheiro – “quem perdeu, não foi o Brasil, mas a seleção brasileira”. E quando nos referimos a perder e ganhar, não devemos furtar nossa consciência no sentido de admitir que o Brasil, do ponto de vista social e político vem perdendo em vários campos: Perdemos mais de 50 mil vidas que são assassinadas por ano, numa média de 136 pessoas por dia. Para resumir, estamos perdendo: Nossos jovens para as drogas; nosso dinheiro para a corrupção de todos os naipes; nossos valores morais; nosso ensino de qualidade; nossos professores, pela violência escolar e por falta de salário digno; nossa liberdade de expressão; nossa liberdade de ir e vir, por falta de punição aos marginais que roubam e matam, e por falta de sistema judiciário e penitenciário adequados; nossa habilidade de votar de forma consciente, causada pela promiscuidade partidária, porque os partidos políticos se aglutinaram conspirando contra os eleitores nas suas alianças espúrias, só visando o poder político e, finalmente – estamos perdendo o maior bem político – nossa democracia, que nos permite o direito às liberdades saudáveis, no agradável convívio social, com todas as raças, etnias e religiões.
O “Brasil” que perdeu nos gramados, não precisa perder nos outros campos. Se alguém estava se servindo do ilógico para driblar o lógico que é a consciência sobre o porquê que o Brasil está perdendo quanto ao que é mais essencial, poderá se surpreender nas próximas eleições quando todo o Brasil adulto irá à campo para ganhar de fato e de verdade, depositando nas urnas seu voto consciente em busca de um Brasil de equilíbrio entre a força do bem e do mal.
Neste sentido reitero o alerta: Não basta votar em pessoas, é preciso identificar os partidos políticos e seus aliados. Lembrando sempre que, no atual sistema político, que há resistência para ser mudado, os candidatos continuam tendo, na ordem o seguinte comprometimento: 1. com os seus partidos; 2. com os seus patrocinadores; 3. com os seus eleitores. A escolha mais inteligente é escolher o partido que melhor se identifica com a sua maneira de pensar políticossocial, depois escolha o seu candidato. Isso fará diferença para se ter um Brasil melhor, considerando que a maioria dos brasileiros é norteada por bons princípios.
Seremos grandes no futuro, se não pensarmos pequenos no presente. Este Brasil que sonhamos, que seja vencedor sobre as mazelas que aí estão, não apelando por sua torcida, mas pela sua consciência de cidadão.
O Brasil perdeu? Pode ser que tenha ganhado, mas ainda não temos consciência!

Francisco Meirinho