PÁSCOA E SEUS SÍMBOLOS

imacordeiroPães asmos, ovo de chocolate, cordeiro, coelho, pão e vinho. Tudo isso e muito mais fazem parte dos símbolos da páscoa no contexto bíblico-histórico-cultural.

Qual a relação de tudo isso com a páscoa? As explicações são variadas, mas sempre com conotações positivas, quando entendemos que aponta para algo extraordinário que aconteceu, cujo objetivo final era – salvação e libertação.

De acordo o Antigo Testamento, os judeus reuniam-se anualmente em Jerusalém para comemorarem a páscoa, tendo os seguintes ingredientes no cardápio festivo: Pães asmos/ázimos, cordeiro assado e ervas amargas, carregados de significados: Pão sem fermento -simbolizava a pureza, ervas amargas – sofrimento da servidão, e o cordeiro recordava o sacrifício – que tinha por objetivo o perdão, a remissão, além de apontar objetivamente para a libertação política e social da escravatura do povo de Deus ao domínio egípcio.

Do ponto de vista cultural e religioso, os habitantes do hemisfério norte relacionavam a páscoa cristã com o fim do inverno e início da primavera, que revela a exuberância da vida animal e vegetal. Daí, surgiram os ovos coloridos como símbolos das cores da primavera, origem da vida e, o coelho, como fecundidade, multiplicidade, abundância e origem, sem deixar de ter relações com culturas pagãs milenares.

Tudo isso, não deixava de ser um grande processo de conscientização dos povos que, de alguma forma mostra uma realidade espiritual que todos viviam, mas que, através da vinda, morte e ressurreição de Cristo, a liberdade esperada se tornava realidade, considerando o paralelo entre libertação social e libertação espiritual.

O espírito humano sempre almejou a liberdade e a comunhão com Deus, mas a mente humana, a alma se mantém em conflito entre o amor que aproxima, e a indiferença que a distancia. O resultado é vermos a humanidade desapontada, como alguns filhos naturais na adolescência, que comportam-se psicologicamente com os pais, de forma estranha: amam, e ao mesmo tempo se rebelam contra eles.

Será que a humanidade, ainda está na sua adolescência espiritual? A fixação por outros símbolos, e não ao original que é o cordeiro, não seria uma forma psicanalítica de demonstrar resistência, impedindo que conteúdo reprimido constituído de transgressão e culpa congênitas, contra a paternidade universal, possa emergir do inconsciente, levando-o ao insight e como resultado reconhecer-se como alguém que precisa reatar aliança com o pai criador, perdoando-o e buscando perdão? Você dirá – Isso é coisa para Freud explicar!

Na busca por Deus, sempre buscamos o caminho mais difícil e não o mais fácil. Por quê? O cristianismo original é simples, mas a religião cristã é complicada. O Evangelho é simples, mas a teologia é complicada.Adorar a Deus em espírito e em verdade é simples, mas produzir todo o aparato idólatra é complicado. O ministério cristão é simples, mas a hierarquia e o poder clerical é complicado. Será que não buscamos sempre o complicado como medo de encarar a verdade. A verdade cristã é simples, mas a mentira religiosa é complicada. Onde a maioria das pessoas está – no simples ou no complicado?

O bem , o simples e prático que o Evangelho mostra rejeitamos, e nos voltamos para algo complexo, que represente os nossos feitos, fruto de nossa criatividade, por isso a fabricação dos ídolos para representação da divindade. Paulo escreveu: “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e, sim, o pecado que habita em mim”. (Rm 7. 19, 20)

A religião que produzimos não é fruto do bem em nós, mas para justificar o mal que não queremos largar, por isso as religiões reflete quem realmente somos. A religião que procede de Deus, que objetiva religar o homem a Deus é simples e não precisa inventar deuses paralelos e nem criar estranhos atalhos.

Você dirá – na páscoa, o símbolo maior é o cordeiro, partindo desta consciência, sempre estará apontando para a necessidade de confissão, perdão, que resulta do grande sacrifício. Isso é o que o nosso eu interior deseja, mas tem dificuldade de fazê-lo. Já o ovo e o coelho, mistificam, enquanto mascaram a originalidade e o sentido da páscoa, fazendo o homem celebrar, sem contudo lembrar da sua necessidade intrínseca que é a busca pela redenção pelo sangue de Cristo. Estamos sempre criando caminhos paralelos, que não se opõem diretamente, mas tentam afastar o homem da verdade, a exemplo do natal, que culturalmente falando, é mas do papai Noel, do que de Cristo.

Apesar da situação espiritual confusa da humanidade, como afirmou Paulo de Tarso – na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de mulher… – O messias, que cresceu e, alcançando sua maioridade foi, de certa forma, apresentado ao mundo por João Batista, que ao avistá-lo, apontando para Ele, disse: “eis aí, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Ele não foi apontado como o coelho de Deus, mas de acordo com o símbolo maior, o cordeiro que aponta para a remissão e libertação do pecador. Como tal, deveria ser sacrificado, para se transformar no cordeiro pascal, através do qual alcançaríamos a plena redenção.

O incentivo para a comemoração não deve ter como base, o velho fermento, e nem outros fermentos à base da maldade e da malícia. E nem da invencionice religiosa. Assim, só nos resta seguir a dica apostólica que nos leva a refletir de forma mais profunda e precisa, que implica na demonstração do motivo original, sem descartar outros símbolos paralelos incorporados na cultura ocidental, que de certa forma, aponta para algo grandioso, mas, indiretamente. Por isso é preciso estar atento, para que a criatividade humana, não conspire contra a realidade divina.

Asmos da sinceridade e da verdade, mostra muito bem o nosso compromisso com tudo o que representa a morte vicária de Cristo e sua gloriosa ressurreição. Também, não podemos nos render à cultura dos povos, que tendem substituir o cordeiro pelo coelho, a vida, pelo ovo, esquecendo da maior mensagem – Cristo é o nosso cordeiro pascal. Substituir, no cristianismo histórico, tem sido o meio enganador, porque desloca os elementos essenciais do seu posto. Por exemplo, apesar do Novo Testamento mostrar Cristo como o centro da nossa experiência e referência  para alcançar a graça salvadora e todos os demais favores, entretanto, o que vimos é a substituição por outros elementos periféricos: personalidades, ídolos, teologias, conceitos, etc.

Se você degusta o chocolate, ovo, carne de cordeiro, pode ter bom paladar. Se além disso, percebe e se alimenta da principal mensagem da páscoa, é porque seu coração foi conquistado pelo amor Deus, que nos convence a distinguir, a diferença entre a festa popular da páscoa e da comemoração original, que se resume no princípio da sinceridade, e na verdade relevante, procedente de Deus, que aponta para Cristo, como o cordeiro que tira o pecado do mundo

Não tenha medo da verdade, dê vazão para a necessidade do seu interior, e celebre a páscoa, no seu maior sentido, na forma apresentada pelo Evangelho, mesmo com a páscoa cultural: “Por isso, celebremos a festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia; e sim, com os asmos da sinceridade e da verdade”. (1 Co 5. 7)

Jesus quando se dirigiu ao judeus que haviam crido nele, disse: “…se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8. 30 – 32).

Há muitos cristãos, mas poucos que alcançaram a verdade libertadora. Este foi o desafio que Jesus lançou a esses judeus crentes. Eles já haviam crido, mas para que encontrasse a libertação teriam de, além da fé inicial, dar os seguintes passos: a) permanecer na palavra; b) ser discípulos verdadeiros; c) conhecer a verdade; e finalmente serem libertos pela verdade.

Buscar a verdade nunca foi um caminho muito fácil, mas necessário, para uma vida comprometida com Deus que produz a grande libertação, tanto dos mitos que ofuscam o conhecimento, quanto dos ídolos cegos e mudos, como também, da falsa religiosidade que impede o nosso progresso, porque nos mantém no retrocesso da vida, na cegueira espiritual e sob manipulação de líderes inescrupulosos.

Francisco Meirinho

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